Eletricitários adoecem na volta ao trabalho presencial



Eletricitários adoecem na volta ao trabalho presencial

Desde o início da pandemia de coronavírus no Brasil, em meados de março, o RH da Cemig orientou as gerências lotadas no CRIU de Uberlândia a encaminhar seus trabalhadores para o regime home office. No entanto, no dia 29 de abril, o responsável pela Gerência de Expansão e Manutenção Preventiva da Média e Baixa Tensão da Distribuição Triângulo (EM/TR) resolveu convocar os funcionários de volta ao trabalho presencial.

Àquela época, o Brasil estava em pleno crescimento de casos e a Cemig começou a travar uma batalha para adiar o pagamento da PLR em função da pandemia. Além da tentativa de retirada de direitos, os trabalhadores foram obrigados a se expor. Ao longo dos mais de três meses que se passaram, o país chegou a um estado caótico e Minas Gerais registrou alta de casos, com UTIs perto do colapso.

Não por acaso, o Sindieletro se posiciona contrariamente a qualquer tentativa de retorno ao trabalho na empresa durante o período crítico da pandemia. Afinal de contas, a taxa de contágio em Minas Gerais ainda está alta e não começou a reduzir – o cenário no país também é desanimador, com cerca de 1.200 mortes diárias e uma média de 50 mil casos novos por dia.

No entanto, uma decisão isolada levou os funcionários tanto do quadro próprio, quanto os terceirizados, a voltar a trabalhar na mesma sala. É um ambiente amplo, os espaços foram divididos por biombos pequenos e o distanciamento de 1,5 metro foi cumprido. Mas outras características precisavam de atenção: na sala só há uma saída. A maçaneta pode ser vetor do vírus, por exemplo.

As orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) são claras: o isolamento social deve permanecer enquanto a curva não descer. As medidas de higiene e distanciamento não excluem a possibilidade de transmissão do vírus, apenas diminuem as chances. Prova disso foi o resultado desastroso na EM/TR: dois funcionários testaram positivo para coronavírus; um deles, supervisor.

Incômodo entre trabalhadores

Os testes só foram realizados após uma mobilização interna: alguns começaram a notar que colegas apresentavam coriza, dor de garganta e mal estar. Os sintomas começaram a gerar desconforto nos demais (e, claro, nos próprios contaminados), que estavam com medo de adoecer e levar a covid-19 para suas famílias.

Foi o caso de X, que adoeceu com toda a sua família. Não é possível confirmar quem transmitiu para quem, mas é fato que a exposição aconteceu – ou da família, ou dos colegas de trabalho. X começou a se sentir mal e foi afastado. Ao se consultar com o médico, recebeu o diagnóstico de gripe comum. “Mas quando cheguei em casa, percebi que não tinha mais olfato. Voltei ao médico e realizei o teste, que foi positivo para covid-19", conta.

O trabalhador lidou com os sintomas conhecidos, como a falta de ar e dores musculares. Apesar de ser a responsável por expor os trabalhadores, a Cemig não testou ninguém. Ficou a cargo de cada um arcar com suas despesas médicas. Após a confirmação das contaminações, no dia 10 de agosto, a gerência enviou os trabalhadores para casa novamente.

Mas, em seu comunicado, o (ir)responsável ainda deixou a opção de trabalhar na empresa em aberto, para aqueles que “não disponham de infraestrutura de informática ou não queiram ficar em home”. Num momento no qual o Brasil atinge a dolorosa marca de mais de 100 mil mortos, é absurdo cogitar essa possibilidade.

Cemig nega surto, mas confirmamos adoecimentos

No hospital, X. soube, por meio do médico que lhe atendeu, que mais de oito funcionários da Cemig já testaram positivo para a doença. Apesar disso, a gestão da empresa insiste que não houve um surto de coronavírus no local. Por telefone, nosso diretor William Franklin, coordenador da Regional Triângulo do Sindieletro, conversou com Neuza Maria Caixeta Santos, técnica de enfermagem do trabalho responsável pelo DRP/ST (Gerência de Saúde, Higiene e Segurança do Trabalho). Neuza afirma que “só algumas pessoas” foram contaminadas e que os protocolos estão sendo seguidos.

Questionamos: os protocolos não deveriam incluir a preservação da vida dos trabalhadores? A ampla testagem (inclusive para os que voltam da quarentena, para confirmar o resultado negativo)? O envio do material necessário para que possam trabalhar de casa? Avaliamos que a atitude, que foi específica nesta gerência, veio como um chamado para a produtividade. Novamente, decisões que não valorizam a vida, visam apenas o lucro.

Há pouco mais de uma semana, colegas da regional Leste se despediram de Flávio Barbosa, eletricitário que faleceu no dia 4 de agosto por covid-19. Será que a memória da gestão é tão curta a ponto de já ter esquecido da pandemia e suas milhares de vítimas?

Mesmo com marcações e protocolos de higiene, fica claro que a decisão foi falha. Por enquanto, os contaminados de quem temos notícias estão bem, mas não sabemos a real extensão do problema. Por isso, continuamos batendo na tecla: o isolamento deve continuar! Minas Gerais é um dos estados que apresenta crescimento acentuado de casos, sem aval científico para retorno. Fica registrada nossa indignação com a irresponsabilidade da gerência e a permissividade da empresa. Seguimos acompanhando os casos e denunciando.

Já abordamos sobre o anúncio de retorno às atividades presenciais da Cemig. Confira aqui.

Em nosso site www.sindieletrocontracovid.com.br,  você encontra orientações, informações e matérias relacionadas ao tema. Denuncie através do formulário de contato ou por meio dos outros canais do Sindieletro.

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