O encontro foi marcado por forte oposição ao governo Zema e contra a privatização das empresas estatais, principalmente a Cemig e a Copasa, que são essenciais para o desenvolvimento do Estado
O auditório da Assembleia Legislativa de Minas Gerais ficou pequeno hoje, quinta-feira (14/08), para receber centenas de mulheres de todas as regiões do Estado. Entre elas, dezenas de sindicalistas, líderes de movimentos comunitários e nacionais, que vieram compartilhar experiências e renovar forças na audiência pública da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Com muita energia, as lideranças femininas discutiram as lutas que vem sendo travadas em Minas e no Brasil, como a luta por mais direitos, reconhecimento, democracia e soberania popular.

O encontro destacou a importância da defesa dos territórios e das empresas estatais, como Cemig e Copasa. “Minas não está à venda e nós, mulheres, não vamos aceitar que o Estado seja destruído, dilapidado, e que as políticas públicas sejam sucateadas em prejuízo à nossa vida”, afirmou uma das lideranças, na abertura dos trabalhos da audiência pública.
Representando a Executiva Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, Miriam Nobre trouxe um relato contundente sobre os impactos da privatização da água em São Paulo e a ameaça à autonomia das comunidades. Ela disse que a privatização da Sabesp ocorreu de forma tão acelerada que não houve tempo para organizar resistência.
Miriam atua no Vale do Ribeira, com comunidades quilombolas e agricultoras familiares. Ela contou que as mulheres construíram, ao longo dos anos, sistemas comunitários de captação, tratamento e reaproveitamento da água, em harmonia com a natureza.
“Agora, tudo isso vai ser proibido, porque o único acesso possível à água e ao esgoto será pela rede da companhia privatizada. O capitalismo expande as relações de mercado, impedindo modos de vida e cercando o que é comum. Essa é a mercantilização da vida: transformar em mercadoria aquilo que sustenta a nossa existência”, afirmou.
A diretora da secretaria da Mulher Trabalhadora do Sindieletro, Denise Borges, ressaltou que o sindicato está promovendo o debate público em Minas Gerais, defendendo a manutenção da Cemig e da Copasa como empresas estatais, apesar da insistência do governo Zema em privatizar o patrimônio dos mineiros.
“As mudanças arbitrárias e repentinas são parte de um projeto maior: um projeto de entrega da Cemig ao mercado, de deterioração das empresas mineiras para facilitar a privatização. Eles estão querendo, inclusive, passar por cima da nossa Constituição, que impede a privatização de estatais se não houver a realização de um referendo popular”, explicou.
Defesa das riquezas dos mineiros
As lideranças de movimentos sociais como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) defenderam que a soberania é comprometida pela expropriação de recursos naturais, como o minério, que explora e deteriora o meio ambiente, especialmente em Minas Gerais sob o governo Zema.
“A falta de acesso a bens básicos como água e energia elétrica impede que a população seja verdadeiramente soberana. A soberania é a palavra de ordem da luta atual”, disse uma das lideranças.
A vice-presidente da CUT – Minas e diretora do Sindágua, Silvia Ferreira, destacou que privatização da Cemig e da Copasa agravaria a já precária situação da saúde. “Essas empresas mantêm contratos e convênios vitais com hospitais, como a Santa Casa, que dependem desse apoio financeiro. Uma vez privatizadas, esses recursos seriam cortados, impactando severamente hospitais e escolas, que perderiam a capacidade de negociação e suporte”, enfatizou.
Mulheres na luta pela água e energia
A falta de água e de energia afeta diretamente as mulheres, que historicamente e ainda hoje, carregam grande parte da responsabilidade pelo cuidado da família, alimentação e obtenção desses recursos essenciais. Apesar dos avanços sociais, as responsabilidades femininas persistem, tornando a participação das mulheres crucial na defesa desses serviços públicos.
“Ainda que haja contato e apoio de deputadas mulheres que compreendem a luta contra o ‘desgoverno Zema’, o movimento necessita urgentemente do apoio de toda a sociedade. A não privatização da Copasa e da Cemig, até o momento, é atribuída à memória de ex-governador Itamar Franco, que inseriu na Constituição mineira o dispositivo do referendo popular”, relembrou Silvia Ferreira.
Para a militante do Levante Popular da Juventude, Amanda Vargas, estudante de psicologia pela Universidade Federal de São João Del Rey, o apoio à luta das mulheres articula-se com um projeto popular para o país, a universidade e a sociedade.

“Eu defendo um modelo de economia e relações focado na vida, no antirracismo e no feminismo, distanciando-se de uma lógica capitalista. O apoio às mulheres e a participação na marcha são cruciais para a construção de um projeto de Brasil popular. Por isso, somos contra todo tipo de privatizações, incluindo a da Cemig e Copasa, empresas essenciais para o desenvolvimento de Minas”, declarou.
A militante do Movimento dos Sem Terra (MST), Disneir Amaro, que veio de São Joaquim de Bicas, falou que a marcha e o movimento são importantes para promover maior interação, entendimento e conscientizar as mulheres sobre a luta pelos seus direitos e fortalecer a causa.
“A necessidade de lutar contra a privatização da Cemig e da Copasa passa pelo aumento de tarifas, que vai prejudicar, principalmente, o povo mais pobre. Na verdade, estas empresas pertencem ao povo. E estamos unidas contra o governo Zema que quer entregar nosso patrimônio para empresários que só visam ao lucro”, afirmou.