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Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais

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Federalização da Cemig: o que é fato, o que é mito e quem ganha com a confusão

Nos últimos meses, o debate sobre a federalização da Cemig tem sido usado pelo governo de Minas para justificar a manutenção da empresa no atual modelo de gestão e, na prática, manter aberta a porta da privatização. O principal argumento oficial, de que a transferência do controle da Cemig para a União “dispararia o tag along” e inviabilizaria o processo, não se sustenta tecnicamente.

Na realidade, a tese do tag along é frágil e serve a uma escolha política: empurrar a empresa para o modelo corporation, diluindo o controle público e abrindo caminho para a privatização “por dentro”.

O que é tag along e quando ele se aplica

O tag along é um mecanismo de proteção aos acionistas minoritários em casos de venda do controle para o setor privado. Pela regra, o novo controlador deve oferecer aos acionistas com ações ordinárias (ON) pelo menos 80% do valor pago por ação ao antigo controlador.

Importante destacar:

  • O tag along só vale para ações ordinárias (ON).
  • As ações preferenciais (PN) não têm esse direito por lei, a menos que haja previsão no estatuto da empresa, o que não existe no caso da Cemig.
  • Ou seja, o tag along só é acionado quando há venda do controle para agentes privados, e não em transferências entre entes públicos.

Por que a federalização não aciona o tag along

A federalização da Cemig é uma transferência intergovernamental, de um ente público (o Estado de Minas Gerais) para outro (a União). Trata-se de uma política pública, não de uma operação de mercado.

Nesse tipo de operação:

  • O controle continua sendo público, antes e depois da transferência.
  • Não há alienação para o setor privado, portanto, não há motivo para acionar o tag along.
  • O discurso de que “só dá para federalizar virando corporation” é um mito conveniente; uma justificativa técnica que, na prática, prepara o terreno para a privatização.

O risco da “corporatização”

O modelo de corporation, usado como argumento para viabilizar a federalização, é, na verdade, um risco ao controle público.

Em uma corporation, não existe um controlador definido. Isso significa que o Estado abre mão do comando direto da empresa, permitindo que fundos e grupos privados passem a construir poder de voto e influência.

Hoje, a Cemig não enfrenta nenhum risco de tag along, pois não há venda de controle. Mas, se o controle for diluído, o cenário muda:

  • Com o avanço de grupos privados, a empresa perde o caráter público.
  • Eventual mudança de controle futuro acionaria o tag along, mas já com a Cemig fora da esfera estatal.
  • Resultado: uma privatização em câmera lenta, feita sem debate com a sociedade.

O que mostram os números

Segundo a composição acionária mais recente (outubro de 2025):

  • O Estado de Minas Gerais detém cerca de 50,97% das ações ordinárias (ON), o que garante o controle de fato.
  • Existem aproximadamente 956 milhões de ações ON (CMIG3) e 1,9 bilhão de ações preferenciais (PN) (CMIG4).

Na prática, mesmo em um cenário hipotético de venda privada, o custo de tag along recairia apenas sobre as ON. Portanto, usar as ações preferenciais (PN) para inflar o suposto “custo da federalização” é pura cortina de fumaça.

Perguntas e respostas diretas

  1. Federalizar dispara o tag along? Não. Transferência entre Estado e União não é alienação privada.
  2. A operação muda o controle societário? Não no sentido que importe ao tag along. O controle continua estatal.
  3. Quem teria direito ao tag along se houvesse venda privada? Apenas os acionistas com ações ON. As PN ficam de fora, salvo regra estatutária específica (que não existe).
  4. E se “virar corporation” para depois federalizar? Aí, sim, muda tudo: o Estado perde o controle e abre caminho para a privatização futura.

Ou seja, não há barreira técnica que impeça a federalização da Cemig mantendo-a pública e estratégica. O que está em jogo é uma disputa de projetos: de um lado, a soberania energética e o investimento social; de outro, a financeirização e a venda da empresa em fatias.

O tag along** não é o problema**. O problema é a escolha política de empurrar a Cemig para um modelo que dilui o controle público e favorece a privatização, colocando em risco uma das principais empresas de energia do país e o patrimônio do povo mineiro.